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Do Inconsciente.

"Benny sentou-se na beirada da cama e afagou meu pescoço delicadamente. Eu estava em alguma terra distante, algum lugar ainda mais irreal, mas seu toque me trouxe de volta.
Responsabilidades.
Virei-me para ele e sorri de canto de boca. Era sempre um erro me fazer acordar, mas do jeito que ele fazia, até que eu não ficava de tão mau humor assim. Segurei sua mão perto de minha bochecha e tentei abrir os olhos. Ele começou a cutucar a minha barriga rindo como um garoto porque sabia que isso me fazia sentir certas cócegas. Eu o mordi de leve e quando dei por mim já rolávamos em brincadeiras estúpidas na cama.
Era primavera e talvez por isso comemorávamos.
Benny me chamou para dançar e eu aceitei. Ele abriu espaço na sala - que de repente pode ser chamada de salão - e me estendeu a mão. Eu fiquei com medo no início, mas ele me disse pra deixar de lado a vergonha que não tinha ninguém olhando. Fui. E fomos girando movimentos a fora, entre jazz e foxtrot. Axé, pagode, indie. Benny podia dançar qualquer coisa, Benny podia ser qualquer coisa. Ele era tudo que eu precisava que ele fosse.
Na nossa casa de praia, eu não precisava ser qualquer outra coisa que não quem eu era de verdade. Eu usava meus vestidos, minhas camisetas GG do Vancouver Canucks, minhas samba-canção. Benny não se importava com nada disso, com nada do que eu parecia. E quando eu estava com ele, eu não precisava provar nada para ninguém, não precisava me assumir repetidamente, eu só era a sua C, a menininha de 11 anos, a adulta de 16.
Benny me fez girar tanto que eu via o teto alçar ovo como um helicóptero e eu abria meus braços e Benny dizia “Voa, voa passarinho. Que nem o teu pranto é capaz de te segurar”. E com o Benny eu voava, nas suas asas de anjo e o mundo parecia tão mágico naquele que me fortalecia.
Eu fui tropeçando em meus próprios pés, como o moço que chegou perto demais do sol e se queimou. Eu tropecei e caí no sofá como um saco derramado de ossos e aí estanquei as mãos no rosto e desatei-me a chorar. Benny desabou do meu lado e nada disse. A música parou, o tempo virou mais tarde e Benny se agachou comigo ali no salão, tão pequenino, sem ser capaz de lidar com mais nada. Estávamos tão cheios de mim.
Fomos até a praia e andamos na orla, mesmo que o tempo estivesse já nublado e recém-tempestuoso. Ele segurava a minha mão forte, mas seu sorriso preliminar já era. E eu me agarrava a ele, como se fosse a última coisa segura na Terra a qual pudesse me agarrar. “Não confie em ninguém”, ele dizia, “Tem ferida que não sara nunca.”
Quando voltamos à casa, encontramos meu coração na praia do meu inconsciente. Ele estava ali, parado, na risca de onde a areia beija o mar. Eu fiquei perplexa, ele estava de pé. Soltei a mão de Benny e quase fui até lá. Mas Benny segurou meus ombros e disse “Espere! Olhe!” A onda veio e bateu em nós. Eu senti a água fria e salgada tocarem os nossos pés, eram 6, e tive de fechar os olhos para enxergar aqueles rastros de espuma estrelados. O cheiro do mar me era tudo e quando dei por mim, me jogava através das águas como num chamado de Iemanjá. Batia braços e pernas, ia para longe, não mais como C., mas como dois. Éramos nós dois nadando, eu e Ele, como os inseparáveis antes de tudo, como se tudo já tivesse acontecido e agora depois de tanto tempo fosse ficar bem.
Mas ainda não estava bem.
Benny me fez flutuar, apoiando os braços no meu corpo pra que eu continuasse inflada boiando. Eu o ouvia pouco, só um reflexo do som do mundo. “Você vai ter que ter coragem, C. Agora mais do que nunca. Coragem pra mergulhar lá embaixo, onde não dá pé, e encontrar a porcentagem que lhe falta de uma vez. Sem ar, sem rédea. Vai ter que superar o seu medo. E quando tu voltar da tua jornada submarina, tenha certeza de que ali na praia do teu inconsciente, estarei te esperando com muita ansiedade.”
E me largou à deriva.
Senti as gotas de chuva começarem a cair é os trovões também, mas meu coração atrevido não tinha mais medo da tempestade.
Estava tudo surdo dentro de mim. Só havia Ele, naquele tum-tum tão familiar. Ah e era tão bom sentir ele batendo em mim, sendo meu depois de tamanha década que eu achei que não fosse conseguir mergulhar nunca. Mas fui afundando, fui afundando como um saco de pedras, com um saco de cicatriz, fui. E me faltou ar, me faltou preparo, me faltou tudo menos calma. Ele estava numa calma e eu junto porque de novo éramos um só.
Éramos um só. E Deus sabe lá pra onde estávamos sumindo juntos.”

- C.S.O
Da série: Nós 3 na casa de praia.

Tenho meus olhos em você
Quero teus olhos em mim.

Leitora/Traidora.

Olhei para os livros na estante e eles estavam quietos, B. Não havia sussurros ou olhares de “leia-me”. 

Nada. Eu os traíra.

Eu os traíra e por isso talvez andasse meio cabisbaixa. Não teria coragem de mentir a ausência deles, me faziam falta. Me faziam falta nos momentos de espera e dúvida, e talvez até quando eu ficava cansada demais do mundo. 

Talvez pela culpa já não entrasse mais em livrarias. Talvez não fizesse mais os mesmo programas com medo de encontrar os mesmos fantasmas e decepcionar mais um. A pilha estava tão grande na minha escrivaninha, na minha beirada da cama, no meu coração.

Havia livros em mim toda. E eu via as palavras dos meus favoritos tatuadas na minha pele negra, nos meus ossos, sentia o fluxo da máquina de escrever digitando e digitando dentro de minhas veias e nisso eu sabia desde cedo o que eu tinha nascido para fazer. 

Nenhum sussurro de “escreva”.

E talvez por isso olhasse cabisbaixa para aqueles meus velhos e queridos amigos. Aqueles que eu trocara por problemas maiores e tão humanos quanto.

Eu os traíra, B. Eu os traíra por mim.

- da sua (leitora) C.

Noites da Cidade Grande.

As noites da cidade grande
Tão barulhentas, tão baderneiras
As músicas que saem de nós são só besteiras
E ninguém mais sabe dançar nesses dias de hoje.
Meu bem,
Moramos muito alto pra termos medo de altura
E a solidão dos meus quadros sem moldura
São as palavras tristes que pensei e esqueci.

- C.S.O

Quando você disse que tinha uma surpresa pra mim, eu senti de leve meu coração bater mais forte. As coisas acontecem assim, rápido demais a nossa volta e acho que a gente fica confusa quando as coisas começam a girar e girar e sem querer percebemos que acabamos nos perdendo no caminho. Eu li aquela mensagem e fiquei tão curiosa. Arranjei um pouco de privacidade em meio ao que era o começo do que me seria uma noite lendária. E quando eu li o que você tinha me escrito, aquelas palavras tão acolhedoras e lindamente escolhidas, foi como se a primavera toda tivesse se aberto diante de mim. Vi teus botões de flor se abrindo e o vento bateu leve nas tuas rosas e eu achei que o mundo todo estava flutuando. Eu sorri de verdade. Sorri de verdade como a gente deve sorrir quando uma coisa tão bonita e genuína acontece na frente da gente e temos a sorte de testemunhar. Foi difícil de ler na tela de celular, mas eu sussurrei cada palavra e dei valor porque eu te juro que coisas tão incríveis não me acontecem assim todos os dias. Eu geralmente escrevo palavras, e ter palavras escritas a mim é uma experiência tão inusitadamente estranha e esquisita que eu me peguei sem saber direito como agir, com todo o perdão da redundância. Mas eu amei de todo o coração. Cada virgula, cada ponto, cada acento. E eu achei que era aquele ‘tudo de bom’ que as pessoas me desejam toda vez que eu faço aniversário. O natal chegou mais cedo quando eu percebi que você tinha notado as coisas sobre mim e talvez eu seja mesmo muito fácil de ler pra você, mas talvez eu prefira não esconder nada até porque seria contra a minha natureza de garota problemática fazer isso. E eu agradeço talvez mais do que qualquer coisa por essa linda surpresa porque é nesses momentos que a gente sabe quem está lá e escuta a gente e pra uma escritora como eu, talvez ser lida e ouvida seja uma das melhores sensações do mundo.

Obrigada por isso.

Sinceramente.

- C.

O Dia Seguinte.

"Talvez o dia seguinte tenha sido o pior de todos. Não foi como se eu não pudesse pregar os olhos, foi como se não conseguisse. Benny estava comigo o tempo todo, deitado abraçado em mim. Sentia que ele talvez estivesse bem mais tranquilo do que eu, preso num sono profundo, tão profundo, que fiquei com agonia de me mexer a noite inteira. Fiquei ali, estática, olhando o teto de madeira que parecia respirar conforme eu suspirava, enquanto Benny roncava silenciosamente de tão exausto de ter que tomar conta de toda a minha asneira.

Quando amanheceu e ele despertou, mantive meus olhos fechados e sei que ele verificou pra ver se eu estava dormindo mesmo. Ele acreditou na minha pobre mentira e desceu pra cozinha pra preparar algo pra mim. Ele voltou com a bandeja de prata e uma tigela de aveia,e mel, suco e uma maçã e disse “Coma. Eu sei que você não dormiu”.

Dei a ele um sorriso morno. Sem desculpas dessa vez.

O tempo estava um mingau, nem mais nem menos. Eu me sentei na escada da entrada da casa com meu cobertor e passei a tarde toda vendo as ondas baterem na costa e reverberarem em mim. Benny fez quase todas as tarefas e não me incomodou o resto do dia. Não discutimos, não conversamos. Ele não me fez rir enquanto eu lava a louça, eu não o atrapalhei enquanto ele julgava e lia. Não jogamos xadrez, não ficamos de olhar as estrelas. Só interagimos de verdade no momento de ir para cama. Ele me deitou e me deu um beijo suave na testa. Segurei sua mão e pedi pra que ele ficasse. Ele se deitou ao meu lado e me contou histórias mais felizes, histórias de romances que acabaram por muito menos, e eu acreditei em cada uma delas, em cada uma delas como se fosse a última coisa que eu pudesse ter feito de útil naquele inverno. Benny não fez perguntas, nem me falou de suas opiniões. Ele só me abraçou durante a noite toda e disse “Durma. Eu respeito a sua dor.”. Depois disso eu desapareci nos seus braços e nas profundezas de um choro manso que eu quase não pude evitar.”

- C.S.O

Da série: "Nós 3 na casa de praia"

Faça O Que Eu Digo; Não Faça O Que Eu Faço.

B. 

A única razão pra eu estar sendo razoável nos últimos tempos

É porque eu não estou seguindo o meu coração.

- C.

1901.

"Quando tu colocou a cabeça pra fora da janela do sobrado dos teus pais pra ver quem era o maluco que tava gritando o seu nome lá fora naquela chuva torrencial, pareceu que o tempo reconfirmou pra mim que tu era a garota que eu tava esperando a vida toda. A primeira coisa que tu fez, obviamente, foi me perguntar que merda eu tava fazendo ali, que teus pais iam ficar tiriris e iam gritar e a casa toda ia abaixo por causa de uma doideira minha. Eu congelava meus ossos todo ensopado ali na rua de paralelepípedos embaixo do poste de 1901, mas pareceu que o destino tinha jogado na minha fuça que tinha pregado uma daquelas suas peças e que mesmo eu querendo tanto evitar fazer besteira contigo, eu ia acabar fazendo de qualquer jeito.

Fiz.

Disse pra tu descer pra gente conversar melhor, tu queira que eu entrasse. Não tinha tempo pra discutir, você acabou descendo de qualquer maneira. Tu abriu a porta de roupão e chinelos de dormir e me chamou pra perto. Mas eu não me atrevi a passar do segundo degrau. Ficar perto de você era confuso demais e eu não queria estragar mais ainda as coisas. Tu queria que eu saísse da chuva, eu queria ficar. Por que que a gente tinha que discordar em tudo hein? Não tinha tempo pra discutir, tinha ensaiado o discurso todo. ‘Então fala logo, oxe’. Devo ter engolido uns litros de água quando abri a boca pra dizer, mas percebi que não saía nada.

Esqueci.

Esqueci tudo o que havia repassado 20 mil vezes no caminho, no ônibus, quando olhei fundo nos teus pequenos olhos. Esqueci tudo quando tu cruzou os braços e passou o peso de uma perna pra outra na soleira daquela porta. Não tínhamos tempo, teu pai tinha sono leve e podia acordar a qualquer momento. ‘Então diz qualquer coisa. Diz a verdade por trás de você estar aqui’. E tu falava como se já não soubesse, mas mesmo assim eu acabei dizendo.

'Cê sabe que eu te adoro, né? Cê sabe que eu não ia conseguir dormir hoje sem te dizer isso, né?'

Podia só ter mandado uma mensagem, mas nada substituiria o olhar de surpresa misturado com dó impagável que tu fez quando eu disse aquilo. Eu sorri. Sorri e tirei  a água do rosto. Subi mais um degrau.

'Tu sabe que eu nunca esperei nada de ti, né? Nada. Eu nunca esperei nenhum tipo de esperança, nunca achei que fôssemos ser um casal ou algo do tipo'

Tu me perguntou o que eu queria de ti então, já que não era como se tu pudesse me dar o resto (e talvez não pudesse mesmo e eu sabia que era melhor assim). 

'Eu acho que eu… Eu só quero te manter perto. Eu só quero a garantia que tu vai tá perto e que eu… eu posso dormir tranquilo que no dia seguinte tu vai tá lá. E que eu não sou… passageiro. Que tu não vai ser passageira pra mim.'

Tu não tava entendendo nada e eu gaguejava. A chuva ficava mais forte e eu mal conseguia te ver. Onde estava você? Era disso que eu tinha medo.

'Eu só quero o teu amor, guria. Da garantia, da forma que for, eu só quero isso. Sei lá.'

Tu não respondeu e eu não consegui ver direito o último degrau. Escorreguei, mas tu me catou. Tu me pegou com os dois braços antes que eu caísse de boca na pedra e me abraçou tão forte assim que eu me equilibrei. Pude ver teu roupão rosa e teus chinelos felpudos ficando todos ensopados comigo, mas eu não pude te largar nem por um instante sequer. As luzes do poste de 1901 iluminavam a nós dois e talvez o teu pai tenha realmente acordado ou por causa do trovão ou porque eu gritei muito alto, mas nada disso realmente importava porque quando tu disse no meu ouvido aquela frase, eu já sabia que até a chuva fazia parte daquele cenário de circo todo sacaneado a mim por Deus. 

'Deixa de falar bobagem, menino. É óbvio que tu já tem.'

E eu sorri feito bobo e te abracei ainda mais forte, como se não houvesse mais nada ou ninguém.”

- C.S.O