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Faça O Que Eu Digo; Não Faça O Que Eu Faço.

B. 

A única razão pra eu estar sendo razoável nos últimos tempos

É porque eu não estou seguindo o meu coração.

- C.

1901.

"Quando tu colocou a cabeça pra fora da janela do sobrado dos teus pais pra ver quem era o maluco que tava gritando o seu nome lá fora naquela chuva torrencial, pareceu que o tempo reconfirmou pra mim que tu era a garota que eu tava esperando a vida toda. A primeira coisa que tu fez, obviamente, foi me perguntar que merda eu tava fazendo ali, que teus pais iam ficar tiriris e iam gritar e a casa toda ia abaixo por causa de uma doideira minha. Eu congelava meus ossos todo ensopado ali na rua de paralelepípedos embaixo do poste de 1901, mas pareceu que o destino tinha jogado na minha fuça que tinha pregado uma daquelas suas peças e que mesmo eu querendo tanto evitar fazer besteira contigo, eu ia acabar fazendo de qualquer jeito.

Fiz.

Disse pra tu descer pra gente conversar melhor, tu queira que eu entrasse. Não tinha tempo pra discutir, você acabou descendo de qualquer maneira. Tu abriu a porta de roupão e chinelos de dormir e me chamou pra perto. Mas eu não me atrevi a passar do segundo degrau. Ficar perto de você era confuso demais e eu não queria estragar mais ainda as coisas. Tu queria que eu saísse da chuva, eu queria ficar. Por que que a gente tinha que discordar em tudo hein? Não tinha tempo pra discutir, tinha ensaiado o discurso todo. ‘Então fala logo, oxe’. Devo ter engolido uns litros de água quando abri a boca pra dizer, mas percebi que não saía nada.

Esqueci.

Esqueci tudo o que havia repassado 20 mil vezes no caminho, no ônibus, quando olhei fundo nos teus pequenos olhos. Esqueci tudo quando tu cruzou os braços e passou o peso de uma perna pra outra na soleira daquela porta. Não tínhamos tempo, teu pai tinha sono leve e podia acordar a qualquer momento. ‘Então diz qualquer coisa. Diz a verdade por trás de você estar aqui’. E tu falava como se já não soubesse, mas mesmo assim eu acabei dizendo.

'Cê sabe que eu te adoro, né? Cê sabe que eu não ia conseguir dormir hoje sem te dizer isso, né?'

Podia só ter mandado uma mensagem, mas nada substituiria o olhar de surpresa misturado com dó impagável que tu fez quando eu disse aquilo. Eu sorri. Sorri e tirei  a água do rosto. Subi mais um degrau.

'Tu sabe que eu nunca esperei nada de ti, né? Nada. Eu nunca esperei nenhum tipo de esperança, nunca achei que fôssemos ser um casal ou algo do tipo'

Tu me perguntou o que eu queria de ti então, já que não era como se tu pudesse me dar o resto (e talvez não pudesse mesmo e eu sabia que era melhor assim). 

'Eu acho que eu… Eu só quero te manter perto. Eu só quero a garantia que tu vai tá perto e que eu… eu posso dormir tranquilo que no dia seguinte tu vai tá lá. E que eu não sou… passageiro. Que tu não vai ser passageira pra mim.'

Tu não tava entendendo nada e eu gaguejava. A chuva ficava mais forte e eu mal conseguia te ver. Onde estava você? Era disso que eu tinha medo.

'Eu só quero o teu amor, guria. Da garantia, da forma que for, eu só quero isso. Sei lá.'

Tu não respondeu e eu não consegui ver direito o último degrau. Escorreguei, mas tu me catou. Tu me pegou com os dois braços antes que eu caísse de boca na pedra e me abraçou tão forte assim que eu me equilibrei. Pude ver teu roupão rosa e teus chinelos felpudos ficando todos ensopados comigo, mas eu não pude te largar nem por um instante sequer. As luzes do poste de 1901 iluminavam a nós dois e talvez o teu pai tenha realmente acordado ou por causa do trovão ou porque eu gritei muito alto, mas nada disso realmente importava porque quando tu disse no meu ouvido aquela frase, eu já sabia que até a chuva fazia parte daquele cenário de circo todo sacaneado a mim por Deus. 

'Deixa de falar bobagem, menino. É óbvio que tu já tem.'

E eu sorri feito bobo e te abracei ainda mais forte, como se não houvesse mais nada ou ninguém.”

- C.S.O

Partida.

"Eu quis ter você na minha vida, mas Benny dizia que eu estava pedindo demais. Eu respondi a ele que o ser humano é um ser sociável e que ele com aqueles sermões infinitos sobre o que eu deveria ou não fazer estavam me deixando louca. Ele silenciou e eu saí porta a fora. Não prestei atenção pra ver se ela tinha batido. Lembro que abracei meu casaco fortemente contra o vento de sal enquanto andava pela orla da praia. Ela era longa e fazia a curva de um machado. Andei tanto e os kilômetros pareciam anos-luz. No começo achei que andava sem rumo, mas quando me peguei na soleira da sua porta tomando coragem para tocar a campainha, entendi mesmo que andara tudo aquilo só pra te ver uma última vez. Eu devo ter desistido uma 13 vezes, mas na décima quarta finalmente bati na porta. Parte de mim torcia pra que você não abrisse, não ouvisse, outra parte queria mais que tudo que você aparecesse. Eu nem sabia o que dizer, eu nem sabia o quanto ficaria estranho, mas não era como se as minhas pernas necessariamente tivessem me obedecido.
Eu estava pré-programada pra amar você.
Você não disse nada por algum tempo, e nisso eu desisti e entendi o quanto tudo aquilo era uma puta bobagem. Dei meia-volta e foi aí que você acendeu a luz do corredor.
Já tinha anoitecido.
Você atendeu a porta tímida, como se já soubesse que era eu. Os olhos cansados e cheios de dúvida, mas havia o fantasma de um sorriso ali que me fez ter a certeza de que era você mesma. Tive raiva. Tive raiva, mas felicidade ao mesmo tempo.
‘Faz tempo’, eu disse.
‘Faz’ você respondeu.
Você me deixou entrar e me ofereceu chá. Eu aceitei. Sentamos na sala de estar com as pobres xícaras nas mãos, frente a frente como espelho. Eu olhava pra você, você não olhava pra nada. E nenhuma das duas sabia o que dizer.
Porque era bizarro demais te ter ali e não conseguir dizer uma palavra. Pouco a pouco fui percebendo que bilhares de coisas me passavam pela cabeça, bilhares de coisa que eu queria te dizer e descontar em você. Mas Benny riscara metade da lista porque ele dizia que não era justo puni-la daquele jeito. Mas e o quanto você me puniu? Vi a mágoa ali, entupindo a minha garganta, e eu não precisei ser nenhum gênio pra saber que nada nunca mais ia ficar bem entre a gente. Nunca mais.
Perguntei dos teus livros, da tua família, de como andavam as coisas e você só dizia ‘se ajustando’. Soube aí que eu não era parte desse seu ajuste e isso pessoalmente me partiu ao meio. Tomei mais um gole do chá e percebi que ele estava pra lá da metade. Talvez mais um ou dois eu o acabasse e aí já não haveria mais nenhuma desculpa pra estar ali.
Você me perguntou das minhas coisas, mas eu não consegui esconder que não queria te contar. Eu queria e não queria te contar tanta coisa. Todo aquele tempo você nem soube por onde eu andava, você nem se preocupou, logo você, e acho que isso foi um grande golpe numa época em que eu realmente precisava do seu abraço. Eu estava começando de novo e você, onde estava? Tentei te dar a glória de algum perdão, mas talvez eu não seja tão boa pessoa assim. Eu só pensava na mágoa e na memória de como te via indo embora de mim como a areia da praia entre meus dedos. E eu só queria que você fizesse parte da minha vida e me deixasse fazer parte da sua, mas Benny estava certo: era pedir demais.
Matei o chá e me despedi. Queria genuinamente que você tivesse uma boa vida e acho que você genuinamente me desejou o mesmo, mas aquela nossa infame despedida talvez tenha me partido em 4 ou 6.
Você me deixou ir embora, mas não era como se eu quisesse ou pudesse ficar muito mais tempo.
Saí pela sua porta e soube que eu nunca mais iria voltar. Cheguei na casa de praia e Benny me esperava com cara de dor. Dessa vez fiz questão de bater a porta atrás de mim. Subi direto pro quarto Dele e Ele estava lá, todo encolhido na cama encarando a janela, como se todo o progresso que tínhamos atingido nos últimos meses tivesse ido por água à baixo. Desabei ao pé da cama e não consegui conter o grito de dor. Benny subiu as escadas correndo e ao me ver ali chorando com o nariz escorrendo, ele sentou comigo e me pegou nos braços e disse pra eu chorar o quanto eu quisesse. Acariciou meu cabelo e beijou a minha cabeça, me embalou até eu quase adormecer. Me lembro que o mundo era uma névoa e que Ele mal tinha se movido o escândalo todo, o que só me dava mais vontade de desabar de novo. Me lembro das mãos de Benny cuidando de mim e de como ele me pedia em voz baixa por calma. Lembro que olhei para ele dentre seus braços e pude ver lágrimas nos seus olhos e uma delas cheguei até a ver derramar. Nem mesmo ele era de ferro.
‘Nem todo mundo na tua vida, C., é feito pra ficar.’ Ele disse com a voz mais chorosa.
Acho que o pior de tudo foi isso. Saber que dentre todas as pessoas que não eram pra ficar ali pra sempre, você era uma delas.”

- C.S.O
Da série: Nós 3 na casa de praia.

"Dessa vez eu não tinha um cabelo comprido para jogar e espalhar como um tapete de veludo pelo meu travesseiro. O colchão engoliria minha cabeça careca lenta e suavemente, como a morte engole a vida quando a gente se esvai. Eu me esvairia e estava bem com isso. Não era como se eu quisesse ficar acordada por muito mais tempo. Dessa vez eu não tinha uma máscara para me esconder das pessoas. Eu não tinha nomes ou identidades falsas, parecia que o tamanho do meu sapato me denunciava, não havia como escolher outro rosto ou outra fala por mais que eu fosse criativa em criar personagens. Eu não tinha um sorriso dessa vez ou um ombro que suportasse o mundo. Eu só tinha os objetos irrelevantes e sussurrantes a minha volta, os caminhos por quais passara e que ninguém poderia ver. As músicas, as novas que se tornariam velhas na minha vida assim como as pessoas. Eu me apegava a elas tão fortemente porque sentia que só ali talvez eu encontrasse a maior das sinceridades. As quais eu não conseguia nem traduzir. Nem os livros, nem as palavras de Machado ou Caio Fernando Abreu. Nem mamãe, nem A Grande Amiga. Aprendera da pior maneira possível a não confiar em ninguém porque não é como se realmente alguém do lado de fora fosse entender. E os gramados pelos quais passei, os convites que fiz e me foram negados. As coisas não que fiz errado, mas que eram certas e não se concretizaram. E o caminho que faço todo o dia no metrô, talvez esteja aprendendo a me apegar mais a ele do que às pessoas a minha volta. Talvez esteja aprendendo a me apegar mais a dar uma volta no quarteirão do que sentar e conversar. Não tomo mais aquele café que eu adorava, já não faço mais o mesmo pedido e não ajoelho mais pedindo a Deus. Não é como se Ele tivesse me abandonado, só eu que abandonei a mim mesma. E dessa vez não haveriam dizeres de conforto ou um abraço que me segurasse. Eu estava afundando no meu próprio colchão, estava cavando meu próprio caixão ali mesmo, e enquanto segurava a morte sonora entre meus dedos, eu realmente queria, mas já não quero mais dividir isso com ninguém."

- C.S.O

Como Um Cão Atrás do Próprio Rabo.

B.

Essa é a primeira vez que isso acontece.

A primeira estranha vez que isso acontece.

Me vi procurando palavras que me traduzissem

Que me traduzissem já que não consigo dizê-las

No final da contas, estava só procurando a minha própria merda.

- C.

Sick of love.

Feriado (Por Nós Dois).

"Ela chegou para o longo feriado na quinta-feira pela manhã e ia-se embora no domingo. Mentiria se dissesse que não preguei o olho esperando por ela, eu durmo como uma pedra. Mas eram dez para às 7 da manhã quando despertei, isso tenho certeza, quase 15 minutos antes do programado.

Então sim, estava ansioso.

Mentiria se disesse que não escolhi minha melhor camisa. Mentiria se dissesse que não arrumei a gola com todo cuidado como ela faria, que não amarrei o tênis com toda a delicadeza e limpei a calça pra que ela parecesse nova. Já deixara um sanduíche pronto pra que assim não precisasse sentar na mesa e engolir olhando pro relógio, pois já estaria dirigindo com o pão na boca porque não aguentaria esperar. E lá estava eu, na perfeita hora em que me programara pra estar, sentado num banco de rodoviária, tremendo a perna esquerda sem parar, esperando um ônibus atracar naquele porto já tão cheio de gente e inseguro. 

O ônibus era grande e tinha muita gente. Uma a uma as pessoas foram descendo e eu tentava me esgueirar e ficava na ponta dos pés pra ver se alguma era ela. Via pais reencontrando filhos, amigos de longa data se revendo e só ficava imaginando como seria o momento em que toda aquela gente ficaria olhando o nosso reencontro, que na minha cabeça haveria de ser o mais bonito que essa terra já viu.

E lá estava ela, toda pueril. Usava uma regata branca e um shorts com sandália, bem simples, e um casaco longo de mangas arregaçadas que fazia com que ela tivesse todo o ar da graça. Ela descia conversando com um senhor de uns 60 anos - era daquelas que fazia amizade em tudo quanto é lugar - e por isso demorou certos instantes para olhar pra mim. Quando me viu, ah o sorriso que ela abriu. Até me esqueci de que fazia quanto tempo mesmo desde a minha última memória dele. Era tão grande e tão verdadeiro, não havia um que eu gostasse mais. Ele desceu o último degrau, se despediu do velho, e veio até mim. Tirei-lhe de trás das costas um flor de papel que eu mesmo fiz e ela se admirou completamente com a minha habilidade no origami totalmente emprestada da internet. Pegou a flor com as mãos e apreciou cada detalhe, mas não que houvessem muitos. Então ela me olhou com aqueles olhos escuros tão emocionados e me abraçou com tudo o que tinha. Eu a peguei nos braços e ali, naquele abraço, eu soube que muito mais do que por um feriado, tudo o que era dela como o cheiro e o encanto era meu também. E vice-versa.

Mentiria se dissesse que não mudava na presença dela. Mentiria se dissesse que não segurei a mão dela com todo o carinho e pelo máximo de tempo que pude, se dissesse que não me emocionei quando ela colocou as coisas junto as minhas no meu quarto automaticamente bagunçando tudo e deixando com um toque a mais de mulher. Mentiria se dissesse que não gostava daquele ar novo todo que ela trazia e que ao mesmo tempo me era tão familiar. Ela ria de mim quando eu ficava sensível assim. E então vinha até mim e passava as mãos no meu cabelo até embaralhá-lo todo e me fazer de cachorrinho. Eu a puxava pra mim e beijava seu pescoço inteiro em rápidos selinhos pra que ela sentisse cócegas e começasse a me estapear pra que eu parasse porque senão ela ia explodir de tanta felicidade.

E ela ria de mim no meu samba-canção canadense que era meu uniforme oficial de verão e cozinha. Ela ria e me abraçava por detrás com os seios soltos por baixo da minha camiseta M que nela ficavam G. Ela vinha e me abraçava por detrás beijando o meio das minhas costas e se aninhando em mim enquanto eu me fazia de mestre-cuca. Ela ria de mim quando eu me cansava fácil andando de bicicleta enquanto tudo o que ela queria fazer era pedalar e pedalar até fingir que a bicicleta era Pégasus, o cavalo alado que carregaria ela pra ela voar. Ela ria de mim quando eu ficava com preguiça de lavar a louça e deitava no sofá. Aí ela vinha se deitar comigo e a gente ficava só de chamego porque, afinal, éramos dois preguiçosos. Ela ria de mim quando eu, todo magrelo e alto, insistia em querer parecer forte carregando peso ou abrindo um pote de azeitonas e aí ela vinha e me dava um beijinho fofo pelo meu esforço até porque, afinal, éramos dois fracotes.

E eu mentiria se dissesse que deixava ela rir sozinha, sem querer me via lá todo besta dando gargalhadas com cada besteira nossa, aproveitando cada segundinho do que partilhávamos até porque a gente nunca sabe quando vai ser o último e no nosso caso, o próximo longo feriado ainda devia estar bem longe.”

- C.S.O

Só porque você não vê
Não quer dizer que as palavras que eu sinto
Não estejam aqui.

- C.

Sarah Jaffe - Clementine